Governo Municipal.

Apontamentos de Literatura

Da impressionante obra de Umberto Eco, “O Cemitério de Praga”, descrita na quarta capa como “Personagens históricos em uma delirante trama”, transcrevo algumas passagens, alguns comentários, a começar por uma observação que fecha a citada descrição:

“Curiosamente, a única figura de fato inventada neste romance é o protagonista Simone Simonini, embora, como diz o autor, basta falar de algo para esse algo passar a existir”.

“Quando sorri, suas pálpebras inchadas se cerram a ponto de deixarem apenas uma linha imperceptível, sinal de astúcia, dizem alguns, de luxúria, esclarecia vovô …”

“Os jesuítas são maçons vestidos de mulher.”

“Os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa.”

“ … daquelas canecas de bebida que por si sós dessedentariam uma manada de paquidermes …”

“ … catedrais desconsagradas …”

“ … sulfúrea impertinência …”

“ … ele sempre escondia sua pertença à ordem vestindo-se em trajes civis …”

“ … e talvez seja por isso que sua memória se recusa a recuperar lembranças que não o honram.”

“ … O senhor é estrangeiro, e talvez não conheça toda a história. Antigamente as imundícies eram jogadas na rua; criaram até uma lei que obrigava a gritar ‘Água vai!’ antes de lançar os próprios dejetos pela janela, mas dava muito trabalho, então esvaziava-se o penico e azar de quem estivesse passando. Depois, fizeram na rua alguns canais a céu aberto; mais tarde esses condutos foram cobertos e assim nasceram os esgotos. …”

“Creio já ter escrito neste meu diário a impressão que me ficou daquela grande cervejaria muniquense, onde os bávaros se amontoavam ao redor de compridas tables d’hôte, cotovelo com cotovelo, atochando-se de salsichas gordurentas e entornando canecas do tamanho de uma tina; homens e mulheres, as mulheres mais gargalhantes, ruidosas e vulgares que os homens. Decididamente, uma raça inferior …”

“Não tinha uma história complexa: simplesmente havia estrangulado uma moça que não gostara das suas propostas amorosas, e aguardava julgamento.
Não sei por que ela foi tão má – dizia – ; afinal, eu a pedi em casamento. E ela riu. Como se eu fosse um monstro. Lamento muito que ela já não exista, mas, àquela altura, o que devia fazer um homem que se respeita? E também, se eu conseguir evitar a guilhotina, a colônia penal não é ruim. Dizem que a comida é abundante.”

“As pessoas se deliciavam com as vitrines dos perfumistas em que se celebravam os milagres do princípio tonificante para a pele com sumo de alface, do regenerador de cabelos à base de quina, do creme Pompadour com água de banana, do leite de cacau, do pó de arroz com violetas de Parma; tudo isso descoberto para tornar atraentes as mulheres mais lascivas, mas já à disposição das costureirinhas, prontas a se tornarem manteúdas, porque em muitos ateliês se introduzia uma máquina que costurava por elas. – A única invenção interessante dos novos tempos havia sido um troço de porcelana para defecar mantendo-se sentado.”

______________________________________

Entre em contato. Mande sugestões, críticas e, é claro, a sua crônica para aparecer aqui.

[contact-form-7 404 "Not Found"]

Crônica

Sacristão de Uma Figa

– Hélio Bruma –

 

S. João Marcos

Oh! sacristão de uma figa!
Oh! larapio porco e vil!
Roubaste do santo, a prata,
E és Escrivão do Civil?!!!

Dos cobres dos castiçaes
Tirados de São João,
Quem mais comeu? A amiga?
Foi a mulher, ou o irmão?

Diz-me agora oh! Loyola,
Oh! Pedro! Oh! Ratazana!
Como enfeitar o altar
Quando, da festa, à semana?

Vae buscar os castiçaes,
Que tu vendeste no Rio.
São João Marcos perdôa
O teu louco desvario.

Tens amiga e tens mulher
Deita juizo á cachola;
E, vende uma, outra empenha!
Mas não roubes oh! Loyola!!
                  A alma do tio Bento
Vendidos na rua da Uruguayana n. 77
Exatamente como está transcrito. Pequeno pedaço de papel amarelecido, imagino que por muito tempo, bastante vulnerável, principalmente nos vincos das dobras, um deles contido por fita adesiva, num curativo, vê-se, igualmente de muito tempo. Encontrei-o dentro de um dos volumes da obra de Machado de Assis, que W. M. Jackson Inc. Editores deram à luz em 1938. Esse sacristão Pedro Loyola enriqueceu ainda mais o livro com a sua safadeza.

Será que existiu, mesmo, o Loyola. E a vítima terá sido o nosso São João Marcos? E como a denúncia versificada terá ido parar lá na Rua Uruguaiana, 77? E o que exatamente vem a ser “A alma do tio Bento”?

Para quem gosta de mistério, um prato cheio. Num telejornal de hoje, uma boa entrada: “Sacristão picareta desafia São João Marcos, rouba-lhe os castiçais, para enfeitar jantar romântico com a amante.”

E poderia acontecer de a repercussão remeter ao município alagado, que teria, embora já sem qualquer valia, a força da mídia que lhe faltou na oportunidade da violência que sofreu.

_________________________________

Entre em contato. Mande sugestões, críticas e, é claro, a sua crônica para aparecer aqui.

[contact-form-7 404 "Not Found"]

Apontamentos de Literatura

A poesia é necessária
Assim era o título de uma frequente seção do velho Rubem Braga na revista Manchete.
Pois eu vou mais longe ainda do que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética representaria, no caso, como que um esforço de autossuperação. – É fato consabido que esse refinamento do estilo acaba trazendo necessariamente o refinamento da alma. – Sim, todos devem fazer versos. Contanto que não venham me mostrar. (Mario Quintana)

**************

E precisa?
O primo Abdar acaba de voltar das férias na Indochina já pensando na próxima viagem.
– Estou louco para conhecer Sikkim.
– Sikkim? – pergunto eu, em minha santa ignorância.
– É um país minúsculo que faz fronteira com o Nepal, o Tibet e o Butão.
– Do Butão, já ouvi falar: tem as pessoas mais felizes do mundo.
– Pois eu aposto com você que no Sikkim os habitantes são mais felizes. Primeiro, porque quase ninguém ouviu falar do lugar.           Depois, porque é a terra do urso panda vermelho.
– Sem turista, com urso panda vermelho, e mais o quê?
– E precisa? ” (Os outros – Ana Cristina Reis)

Definição
Ouvi uma perfeita definição de super-herói, que serve para todos:
– São aqueles caras que usam a cueca por fora das calças. (Veríssimo)

**************

Sem jeito
Em Oslo não havia uma palha fora do lugar. Fomos a um jardim de rosas que parecia retocado em photoshop, de tão colorido e perfeito. Estava cheio de gente, mas ninguém tocava nas flores, ninguém jogava nada no chão, ninguém fazia nada que perturbasse a paz. – Todas as pessoas com quem conversamos falavam com orgulho do país e das suas conquistas, dos bons salários e da vida bem resolvida que tinham. – Para mim, que gosto de arrumação ma non troppo (ninguém cresce no Rio impunemente), a Escandinávia passou do ponto; e eu morreria de tédio vivendo lá. Ainda assim, não há como negar que, lá naquelas terras geladas do Norte, a civilização chegou ao seu ponto máximo. – Foi um choque descobrir, de repente, que uma sociedade tão perfeita pode gerar um ser tão imperfeito quanto o terrorista Anders Breivik. Como é que alguém que cresceu naquelas ruas limpas e naqueles parques arrumados, entre pessoas cordiais e comportadas, pode dar tão errado? – A única resposta que me parece plausível é, ao mesmo tempo, a mais difícil de aceitar: Breivik deu errado não por ser norueguês, é claro, mas simplesmente por ser humano. A sociedade à sua volta e a qualidade de vida que recebeu desde o berço são o que o mundo tem a oferecer de melhor. Se nem isso basta para evitar a criação de um monstro, o mundo, tal como o fizemos, não tem mesmo jeito. (Pensando na Vida – Cora Rónai)

**************

O menino Emiliano Varela
Um mês depois, 11 de dezembro de 1863, à casa de Varela, em algazarra infantil, acorriam crianças sobraçando ramalhetes de saudades e perpétuas, para acompanhar ao longínquo cemitério o corpo de Emiliano. E na quadra n° 3 dos anjos pequenos, no mesmo dia, na sepultura de número 391, ficaram enterrados um corpinho de criança, e tantos, tantos sonhos de um poeta. Emiliano parece ter vindo à terra apenas para inspirar ao pai um cântico de dor, o mais sublime de toda a poesia brasileira:

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. – Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, – a inspiração, – a pátria,
O porvir de teu pai! – Ah! no entanto,
Pomba, – varou-te a flecha do destino!
Astro, – engoliu-te o temporal do norte!
Teto, – caíste! – Crença, já não vives! …”

(Reproduzida aqui a passagem em que o biógrafo se refere à morte de Emiliano, o filho de Varela, e a primeira estrofe do ‘Cântico do Calvário’. – Poesia e vida de Fagundes Varela – Frederico Pessoa de Barros)

_______________________________________________________

Entre em contato. Mande sugestões, críticas e, é claro, a sua crônica para aparecer aqui.

[contact-form-7 404 "Not Found"]

 

Apontamentos de Literatura

 

FITA

Luxo
“Algumas pessoas pensam que luxo é o oposto de pobreza. Não é. Luxo é o oposto de vulgaridade.” (Coco Chanel)

 ***********************

Desejo
“A humanidade é fruto do desejo, e não da necessidade.” (Jean Baudrillard)

  ***********************

Carisma
“O que é, afinal, carisma? O Aurélio diz que é a atribuição a alguém de qualidades específicas de liderança, derivada da sanção divina, mágica ou diabólica. Em suma, um mistério. Você nem sempre sabe quem tem, mas sabe imediatamente quem não tem.” (Veríssimo)

  ***********************

Quem é a mulher inesquecível?

“Mulher inesquecível é problema de amor. Quando se ama uma mulher ela é eterna. Se passa o amor, ela desaparece. É um problema relativo.” (Glauber Rocha)

“Será aquela que a gente ama.” (Tom Jobim)

“A mulher inesquecível para mim não é a minha companheira de agora. Esta, sempre ao meu lado, não posso mesmo esquecê-la, mas foi uma avozinha que eu tive, e que me ensinou a primeira oração. Uma velhinha doce, que se chamava Maria Angélica da Soledade e que tinha os cabelos brancos e os olhos brancos também, pois não viam nada. Mas que tinha na alma a luz do mundo que tinha perdido, e lá a luz do céu que ela ia achar. Foi esta velhinha, de quem eu recebi o primeiro carinho, a mulher inesquecível para mim. Até hoje lembro-a e vejo-a ao meu lado. Pronuncio o seu nome como um começo de oração: Maria Angélica Soledade.” (Álvaro Moreyra)

“Ora bolas, sejamos francos: mulher inesquecível mesmo é aquela que nunca foi nossa.” (Arthur Dapieve)

  ***********************

Formas de rever
“Há duas formas de rever a História: de bom ou de mau humor. Se quiséssemos avaliar os últimos 50 anos de má vontade, diríamos que estamos menos corteses e mais acelerados, menos sensíveis e mais biônicos, menos naturais e mais artificiais. A sacola reciclável e a prateleira dos orgânicos dividem os holofotes com o Botox e os implantes. Presencial e inoperante são palavras reveladoras do dia a dia – você não precisa estar aqui, só tem que funcionar. Nunca se viveu tanto, e nunca se tomou tanto remédio para dormir.” (Ana Cristina Reis)

  ***********************

É um ônibus
“Nenhuma grande ordem de ideias chamava a sua atenção; tinha em pouco as fadigas do gênero humano por bens que lhe pareciam nulos, sem que desse a razão por que, operação que lhe exigiria certa atividade, que não tinha.
A vida é um ônibus, dizia ele; cada um paga a sua passagem e desce do veículo na primeira cova que encontra. Ora, num ônibus, anda-se quieto; deixem-me andar quieto.
Vê-se que o sentimento da preguiça aliava-se um pouco a certa filosofia apática, resultando deste consórcio a mais perfeita tranquilidade de ânimo que jamais entrou num peito daquela idade.
A sua vida era, pois, serena, plana e uniforme. Nem tinha as grandes tempestades que agitam o mar, nem os apectos sombrios de um terreno cercado de montanhas. Era a quietação do lago e a regularidade da planície. Pode ser que houvesse dentro dele o germe das grandes paixões, mas faltava fecundá-la.” (Histórias Românticas – Qual dos dois? – Machado de Assis)